A passagem de Marina

5 nov

Parece que foi ontem, mas já se passaram 10 anos que Marina se foi.

Ela passou por aqui correndo e mudou pra sempre as nossas vidas.

Estes dias pensei como ela estaria, como ela seria, e como seria nossa vida.

Pensei como não somos preparados para morte, como ela nos assusta, e como humanos não vemos nada de bom nela, principalmente quando nos leva um filho, e da maneira que foi.

Mas quando digo que Marina mudou pra sempre nossas vidas, só posso sorrir, agradecer e dizer que pra melhor.

Deus nos deu uma lição para a vida em forma de bebê

Marina nasceu no dia 20 de outubro de 2001, nossa primeira gravidez, Alice e eu estávamos prontos, apesar do fim de gravidez conturbado, tudo estava bem aparentemente.

Mas Marina nasceu com más formações de coração, rim e fígado, e foi direto para a UTI Neo Natal

onde ficou pelos seus 10 dias de luta pela vida.

Hoje não duvido em dizer que Marina não lutava pela vida dela. Aquele bebê, mesmo que sem saber, em seus curtos dias pareceram hoje ter lutado muito mais por mim. Por isso de sua  passagem em nossa vida ser um presente de Deus, e por isso ela foi algo especial de Deus pra nós.

 

Deus nos fez pessoas com a necessidade e o dom de nos relacionar com outras pessoas.

Não tem como fugir disso, somos ligados querendo ou não ao nosso próximo.

Somos como engrenagens uns dos outros que consciente ou inconsciente movemos a vida de nosso semelhante para o bem ou para o mal.

Alegramos ou entristecemos, trazemos animo, ou somos um balde de água fria.

Somos assim uns para com os outros, e a responsabilidade de entender isso, é o que pode fazer de nos instrumentos de bem pra mudar a vida de alguém.

Entender que, porque somos ligados, uma má ação nossa,  pode machucar tanta gente, e gerar uma cadeia de feridas, que vai se alastrando. Ou por outro lado, um ato de amor que pra muitos não tem valor, marca alguém para sempre, e o faz melhor gerando bem que gera bem.

As vezes pedimos pra Deus ajudar alguém, Deus fazer a obra, Deus cuidar.

Mas esquecemos que Deus nos fez com a capacidade de ser a ajuda, a cura, ou a saída para nosso próximo.

 

Porque Marina e esse papo todo de engrenagens?

 

Porque um bebê foi uma lição de Deus,  para minha vida.

Marina foi naqueles 10 dias de UTI, um exemplo de como Deus queria que fossemos para os outros.

Deus fez todos nós ligados um ao outro, não tem jeito.

Consciente ou inconsciente marcamos a vida de quem nos rodeia.

Marina e sua vida de 10 dias,  deixou lições e causou transformações que nem ela mesma se pudesse saberia.

 

Um destes dias lembro que a médica me disse o quanto aquela criança era lutadora, ela foi realista de doer ao dizer que Marina estava viva não sabia porque, e que não era pra ela ter resistido.

Era lutadora mesmo, durante estes 10 dias á encontrei, alguns desfalecida, outros dias  agitada. Outros dias estava quase sem vida ligada aos aparelhos. e no outro berrando com os pulmões á força total, de tanta fome, provocando a correria das enfermeiras.

Alguns dias acreditávamos que íamos sair dali com ela, mas no outros achávamos tê-la perdido de vez, e pra minha surpresa á encontrava no dia seguinte, de olhinhos negros abertos, se mexendo, tranqüila.

Realmente ela lutou pela vida, e esta luta de Marina é que foi á lição.

A luta pela vida de Marina, fez nossa família se unir. Um fato importante é que desde que  Alice e eu nos casamos tínhamos uma dificuldade de juntar as duas famílias, o relacionamento era estranho, principalmente da parte da minha mãe com ela.

Mas por Marina tudo isso foi esquecido, estávamos juntos agora, orando, se abraçando, se consolando, e na torcida pela vitória. Pela vida dela deixamos de lado picuinhas, egoísmos e orgulhos e colhemos frutos disso até hoje.

Muitos que não se falavam, não tiveram tempo ou nem palavras pra pedido de desculpas, e já estavam juntos chorando e sorrindo e se amparando.

Marina foi pra mim uma lição de como somos amados e não sabemos.

Por causa da luta dela, recebi cartas de punks, góticos, headbangers, e outros malucos que amo do Rio, SP e outros cantos por onde eu havia tocado com a minha banda. Cartas de gente do Acre, Ceará que eu só conhecia e conheço por carta mesmo, emails da Espanha (sem eu nunca ter saído do Brasil) de gente que ficou sabendo e todos os dias estavam orando por nós.

Marina foi uma lição de como a religião nos deixa egoístas e fechados ao abraço de pessoas que as vezes não creem exatamente no que cremos, mas que não fogem da forma em que fomos criados uns para os outros, e para ser engrenagens uns dos outros. Porém as vezes nossa dureza não permite que elas sejam bênçãos pra nós.

 

Tive nos meus irmãos da igreja muita ajuda, e nunca estive só.

Mas também encontrei espíritas, católicos, e pessoas de diversas outras crenças que diziam; Estamos pedindo ou rezando por sua filha, e ela vai se curar, tudo vai ficar bem!

Ateus que diziam; que tudo ficaria bem.

Outros considerados malucos, escória, ou dispersos da vida, me abraçaram como nunca ninguém o fez, e dizerem que tudo ia dar certo.

Deu certo, valeu a pena!

Marina partiu no dia 30 de outubro de 2001 para os braços do Pai Eterno, recebemos uma ligação do hospital, com um frio que subiu pela espinha de quem sabia o que havia acontecido, mas estávamos prontos.

Por curiosidade um dia antes, entramos na UTI e passamos mais tempo que de costume.

A enfermeira Andréia ( uma benção de Deus que cuidou da Marina como mãe) disse para a Alice se ela queria segurar Marina no colo, pois nunca ela pôde pegar nossa filha.

Alice sorriu e disse sim. Seus olhos diziam que  tudo o que queria era segurar sua filha.

Marina estava calma, estava bem, e animada. Naquela tarde foi ao colo da mãe pra não deixar esta pendência de afeto e de coração, foi  pra curar essa ferida, para permitir ser abraçada e amada, mas por outro lado fazer o mesmo no coração da mãe.

Deu tudo certo. Marina partiu e de lá pra cá não choramos,  de tristeza, e sim lembramos e sorrimos de alegria por termos sidos mudados por alguém usado por Deus.

Nosso casamento mudou.

Nossa forma de ver muitas coisas e de lutar e persistir mudou.

Vimos o que não enxergávamos.

Passamos dificuldades, apertos e tivemos força de Deus pra vencer.

Recebemos de Deus o Jonathan e o Pablo, e com eles mais amor de Deus em nossa vida e a responsabilidade e o entendimento de ser bem na vida deles

Quanta gente passou por nós nestes 10 anos com as mesmas lutas. Pudemos consolar, e pudemos compartilhar nossa experiência e trazer ânimo,  entendimento, e força.

Acolhemos pais que perderam filhos. Encorajamos, choramos e oramos por outros que viram a cura dos seus.

Mas isso não é de nós, foi bênção de Deus. Benção que entendemos mais, e vivemos mais a cada dia.

Entendemos que todos somos um, feitos por Deus e ligados uns aos outros, fazendo o bem, fazendo o melhor, e sendo o melhor para nosso irmão , como se fosse a ultima coisa, a única chance,  como se  estivéssemos só de passagem.

 Carlos Alberto Correia

Outubro 2011

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