O homem do pão.

1 dez

Quando éramos pequenos meus irmãos e eu brincávamos de igreja. Como havíamos crescido em igreja tradicional, daquelas do reteté, bem pentecostais (como alguns se referem), usávamos na nossa brincadeira tudo que víamos lá. Então nosso culto de brincadeira era bastante agitado, hoje somos em 10 irmãos, mas na época éramos uns 6 irmãos e mais primos ainda, e sendo assim, não faltavam personagens pra essa igreja.

A brincadeira começava e um era o pastor, outro evangelista, outro o obreiro, outro o irmão que gritava aleluia, outra a irmãzinha que pedia a oportunidade pra cantar uns corinhos, e não faltava nem mesmo o possesso endemoninhado ( que quase sempre era eu, ou o Washington meu irmão, ( que por sabermos interpretar bem o papel)  se contorcia, falava grosso, e por fim era livre do espirito ruim, com a oração  dos irmãos.

Era muito engraçado como reproduzíamos tudo, como víamos.

Nesta época passávamos por diversas dificuldades financeiras. Nunca tivemos muita coisa, sempre foi difícil, mas acho que este momento foi o pior da nossa infância. Meu pai desempregado não conseguia mais os bons empregos que sempre teve, e junto com minha mãe, se viravam pra garantir nossa comida.

Mas naquele dia faltou pão. E quando faltava pão de manhãzinha o negócio ficava sério. Podia faltar almoço, mas o pão de manhã era sagrado, e naquele dia nem bolinho de chuva dava pra fazer, e só não estávamos zerados, porque tinha chá de capim santo, e só.

Minha mãe já havia tirado muitos dias alimento de onde não tinha, e já não sabia o que fazer embora não parasse de pensar. Ela firme na fé, sempre conseguia, nunca saiu e voltou de mãos vazias, mas aquele dia as coisas pareciam estar tomando outro rumo, pois o rosto dela mostrava que não sabia onde ir buscar. Meu pai desesperado já havia sucumbido e se entregado ao álcool  de vez, não conseguia levantar cedo, tomado por desanimo, tristeza, e com sentimento de total impossibilidade, desistiu, deixando minha mãe só, mesmo estando na mesma casa.

Foi quando naquela gritaria toda de crianças pedindo pão, que minha mãe gritou mais alto pra poder ser ouvida, pra irmos brincar. Decidimos brincar de igreja, afinal ela sempre dava um jeito. E assim começou mais um culto na nossa igrejinha.

Naquele dia minha irmã Elaine, que era sempre a nossa pastora ou missionária, como ela dizia, parou tudo e disse: Vamos orar de joelho hoje.

E  ai todos nós obedecemos, dobramos os joelhos.
Não sei se meus irmãos que eram pequenos na época se lembram de tudo com tantos detalhes quanto eu que era o mais velho. Mas lembro e jamais esquecerei, que naquele dia uma coisa diferente aconteceu. Ninguém gritou glória mais alto que ninguém. Ninguém quis oportunidade pra cantar, e  ninguém fez o papel do endemoninhado. Ninguém imitou nada e nem ninguém.
Minha irmã com mais ou menos uns cinco ou seis aninhos começou a orar e dizendo: Jesus a gente não comeu nosso pão hoje, dá pão pra gente comer hoje Jesus!

A oração dela era a nossa, e uma concordância tomou o coração de todos nós. Pedimos todos a Deus o nosso pão daquele dia.

Pouquinho tempo depois, ouvimos alguém bater na porta. A pessoa não chamou no portão que fica meio longe de nossa casa que é bem nos fundos, ele foi até lá na nossa porta, e bateu.

Quando minha mãe abriu a porta, estava lá um homem, que a saudou, dizendo que soube que ali havia muitas crianças, e que ele sendo padeiro, fazia muitos pães de madrugada, e de manhã trazia muitos destes pães pra casa, e como era só, veio pedir permissão para trazer nosso pão todos os dias, pois o que tinha era muito pra ele só.

O Homem do pão, como passamos a chama-lo, por não saber seu nome, era um mistério pra nós. Era um cara calado, e as vezes de tão quieto, era estranho. Mas como combinado vinha todos os dias, e entregava nosso pão com um sorriso, ou as vezes só um sinal de saudação com mão, e ia embora.

Soubemos que ele alugou um pequeno cômodo numa rua ali pertinho, onde aparecia cedinho após entregar nosso pão somente pra dormir.
Ninguém sabia dele, não tinha mais ninguém com ele ali. Logo passou a entregar pão pra outras famílias da rua, que talvez possam até tê-lo conhecido melhor que nós.
Às vezes no fim da tarde, quase  noite, eu jogando bola na rua o via passar, e ele fazia um sinal de positivo e continuava seu caminho ao trabalho da noite.

O tempo passou, os problemas amenizaram um pouco, e sem que percebêssemos estávamos comprando o nosso pão todo dia, e o homem do pão, não sei se mudou, se foi embora, mas sumiu do mesmo jeito que apareceu.

Hoje com um sorriso no rosto ao contar essa história gostosa, por aquele pão tão especial,  mas principalmente pela lembrança, fica em mim uma lição de vida.

Passamos o tempo todo agindo como meninos, mas não na inocência ou pureza de criança, a qual Cristo revelou aos discípulos, mas  sim sendo levados por todo vento de doutrinas e de coisinhas.
Muitas vezes vivemos imitando gente, instalando em nós os trejeitos evangélicos, ou crentes do momento. Falamos com tom um rebuscado, o dialeto dos irmãos, e encenamos quem não somos.

Fingimos até demônios, tomamos o seu lugar, buscamos algo que aponte sua ação, a fim de dar autenticidade ao que seguimos ou cremos.
As vezes imitamos até pessoas de bem, mas o mal de tudo é que deixamos de ser nós mesmos, e vivemos um teatro. E assim queremos tudo, ser o líder, ser o que mais grita, que mais aparece, ou ser o que mais abençoado e que mais se destaca.

Mas a oração daquele dia, me mostra até hoje como é a verdadeira oração do que confia, do que não pede mais do que pode, mas que como na oração que Jesus ensinou aos discípulos, pede com simplicidade de coração o pão suficiente, das mãos de Deus para cada dia de sua vida. Sabendo que não é necessário levar nada mais que sobeje do lado de fora, mas algo que transborde dentro do homem, que dure e resista vivo, diante de qualquer coisa.

Naquele dia brotou em nós, mesmo pequenos, a pureza e a objetividade do evangelho de Cristo que nos fez deixar toda aquela encenação de lado, dobrar nossos joelhinhos e clamar ao Pai, somente ao Pai nosso do céu, pelo pão daquele dia.

Não o pão de amanhã, nem o pão para “eu” somente, mas o nosso pão daquele dia.

Na nossa porta bateu, e chegou à resposta mais clara, que vai além do pão material, mas a que marcou a minha vida.

Na nossa porta, bateu mais que o homem do pão, que não conhecemos direito, senão que era um trabalhador honesto e dedicado no que fazia e de bom coração, que não ouso dizer que era um anjo, e nem sei se era evangélico, católico, de qualquer outra religião ou ateu. Mas de uma coisa tenho certeza, ele foi a resposta de Deus para aquele momento de nossas vidas.

Na nossa porta bateu e bate todos os dias Jesus Cristo, o pão vivo que desceu do céu, e que prometeu a todos nós deste mundo. sem exceção, nunca nos deixar.

E assim fez, e é até hoje. E assim me fez crer, e quando me esqueço, me faz lembrar como me lembro agora, e conto para vocês.

Não sei qual o pão te falta hoje, talvez não seja na mesa, mas seja dentro de você. seja algo que você esconde, ou tenta resolver só. Mas sei que o pão de cada dia, seja de alimento, seja de alegria, de consolo, de amor, e tudo o que precisamos, é chegado até nós, pelos meios do Pai, e que assim seja, para sempre até que ele volte.

Carlos Alberto Correia
Com. Remanescentes
30/11/2012

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3 Respostas to “O homem do pão.”

  1. washington luiz da silva conceição dezembro 1, 2012 às 11:07 am #

    lembro dessa história como se fosse hoje e lembro que depois a gente brincava que nós era mos o homem do pão….

    • ca correia dezembro 1, 2012 às 3:53 pm #

      verdade o homem do pão ainda rendeu uma brincadeira nova. era briga pra ser ele.kkkk!!!

  2. Irene Heilborn novembro 8, 2013 às 8:47 am #

    Chorei…
    Que o SENHOR nos dê a pureza, a simplicidade e a fé das crianças!

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