A Caixinha de Promessa e o Mosquito

6 fev

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Desde pequeno Paulo Roberto via sua mãe usar uma caixinha de promessa. Uma caixinha pequena que era febre na época, que cabia na palma da mão, e tinha dentro versículos bíblicos. A mãe recorria a caixinha nas horas diversas, de duvidas, aflições e problemas. Quando queria uma resposta dona Dália pegava a caixinha e tirava de lá o que precisava, e o conselho certo sobre o que fazer.

Paulo Roberto cresceu e virou “Mosquito”, apelido dado pela molecada da vila, por ser pequeno e magrinho. No mesmo tempo essa mesma molecada, já tinha suas primeiras experiências com um baseadinho aqui, outra coisinha ali, além de  pequenos furtos de algo no mercadinho, ou na rua, quase sempre com Mosquito junto.

Mesmo iniciante da chamada “malandragem”, Mosquito jamais se esqueceu da caixinha da promessa, em sua breve passagem pela escola primária, a qual abandonou, era normal após colar, ir consultar a caixinha da promessa da mãe pra ver se descobria o que seria dele.

Brigava, batia, e apanhava.

Aprontava, roubava, fazia mal.

Mas como em surtos de arrependimento, medo, ou só peso na consciência de quem cresceu dentro de uma igrejinha, ouvindo sobre Deus, onipotência, onisciência e poder de castigar, lá ia Mosquito consultar sua sorte na caixinha de promessa da Dona Dália.

Passado tempo,  Mosquito como os da idade dele, queria comprar um tênis “New Balance” que era o sucesso da época, como tudo que esta na moda custa caro,  seus pais não podiam lhe dar. E assim junto com  mais 3 parceiros de malandragem, resolveu roubar a locadora do centro da cidadezinha pertinho da estação de trem, combinaram que esconderiam  a grana e depois de alguns dias baixado a poeira dividiriam tudo.

De  camisetas amarradas no rosto  e toca na cabeça para dificultar a identificação, lá foram eles.

Armados com um 38 que um deles tinha arrumado, enquanto os outros que fingiam-se também armados tinham as mãos por dentro das blusas.

Deu certo! Limparam o caixa da locadora, e de quebra  levaram alguns VHS de lançamentos de Hollywood da época além de uns pornôs para alimentarem a fantasia de moleque.

Ao saírem dispersaram rapidamente, uns pegando o trem, e cada um pro seu lado. Mosquito com a grana toda na jaqueta que parecia um balão azul marinho, chamada de “japona” na época, ficou encarregado de guardar tudo, até a coisa apaziguar, conforme combinado.

Nunca tinha feito um assalto daquele, considerava aquilo grande, por isso chegou em casa com coração acelerado, suando frio, como se todos soubessem, como se estivesse escrito na sua testa o que tinha feito.

Isso fez Mosquito se preocupar. Enrolou a jaqueta e jogou bem no fundo do guarda roupa, e correu em busca da resposta para sua vida. Pegou a caixinha de promessa da mãe, fechou os olhos e disse a Deus: Me ajuda Senhor fiz um esquema errado, mas foi o último, eu juro, pode ver que tô tremendo todo de medo! Me tira dessa, e ai não quero mais saber disso não!

Após a prece sacou esperançoso do papelzinho amarelinho e leu o trecho de Isaias 41:13: Porque eu, o SENHOR teu Deus, te tomo pela tua mão direita; e te digo: Não temas, eu te ajudo.

Um alívio percorreu sua espinha e tomou seu corpo, caiu pra trás deitou na cama, e com a alegria do roubo aprovado e validado por Deus, gritava: Graças a Deus! Tô livre!

No mesmo momento chega Seu Mauro, que não era muito simpatizante de Deus, e menos ainda da caixinha de promessa, que pra ele era uma idiotice de gente bitolada, como sempre dizia para sua mulher.

– Que isso moleque? Tá livre de que? Que você tá aprontando?
– Nada pai!

– Nada é? Te conheço mais que você, moleque! Não é nada? Pois isso eu vou saber, quando for pra ser! Disse o velho Seu Mauro, calejado da vida e dos percalços dela,  que o tornou malandro de verdade, a ponto de farejar coisa errada no ar.

No outro dia, inesperadamente, Seu Mauro chutou a porta da casa, pegando Mosquito pelo colarinho e dizendo: Me conta agora moleque, que história é essa?

Mosquito aparentando não saber nada do que o pai dizia, acordou pra realidade quando sentiu um “tapão no pé no ouvido”. E assim que o zumbido no ouvido passou, ouviu Seu Mauro gritar com a mão erguida: Eu sou Teu pai Paulo Roberto! E agarrando-o pelo antebraço e com outra na mão direita de Mosquito, o puxou pra fora e  arrastou o moleque ladeira abaixo, na frente de todo mundo da vila, até deixar com lágrimas nos olhos, o filho na delegacia, onde  encontraram um conhecido do assalto que havia dado a fita de tudo.

Não é ficção!Hoje conheci numa viagem de trem o Mosquito, ou “ex Mosquito” porque segundo ele, desde o sopapo do pai, voltou a ser só Paulo Roberto.

Contou que como era menor na época, passou uns dias na Febem  até ser liberado, e  que numa das visitas á cadeia, a mãe levou pra ele a caixinha de promessa, a qual ele decidiu examinar minuciosamente, percebendo que, ou por defeito ou por características de todas as caixinhas, todos os textos eram sempre favoráveis, bons, e com uma ideia de final feliz.

Contou com olho marejado e sorriso saudoso, que Seu Mauro, já falecido, foi na época o agir de Deus, que deu no malandro um tapa de realidade, não aturando mais o auto engano de Mosquito.

Seu velho foi o grito de Deus que dizia: Sou teu Pai!

Seu Mauro, naquele momento, a exemplo do que Mosquito havia lido, foi a mão de Deus Pai, que o pegou pela mão direita e o levou para algo que parecia prisão, mas que o libertou de vez. Cumprindo assim a promessa que não cabe em objeto ou lugar algum fora do homem. Pois o Deus, o Eu Sou, não cabe em caixinhas, Sua palavra é verdade que transcende o colorido dos versos, e a “santa ilusão” que a muitos toma, e espada que corta com amor, o engano, a mentira e a injustiça, e liberta de vez.

Carlos Alberto Correia

06/02/2013

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